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2013 blogosférico nacional: a amabilidade fica connosco, mesmo depois da partida de quem a cultiva

Domingo, 27.01.13

 

Está uma pessoa desligada da blogosfera por duas semanas e quando regressa já nada é igual. Descobri agora, ao espreitar o Delito de Opinião, que o João Carvalho partiu. A blogosfera nacional perdeu um blogger, amável e bem-humorado, que cultivava a cultura da amabilidade.


A amabilidade é o respeito por si próprio e pelos outros, é uma cultura que se bebe na infância e se cultiva ao longo de um percurso.

A amabilidade é alegre e divertida, mesmo quando as adversidades surgem nesse percurso.

A amabilidade é uma qualidade rara e magnífica, tão magnífica que fica com todos os que com ela conviveram, mesmo depois da partida. Tão magnífica, que fica também com os que apenas a sentiram através das respostas a comentários em posts de um blogue.


Li este post do Pedro Correia como se se tratasse de uma descrição de um filme, falava de uma longa amizade, de adversidades, de coragem, da partida de um amigo.

Sempre imaginarei o João a viajar de carro, num daqueles carros de colecção, a comentar casas estranhas e erros gramaticais, e a festejar os anos dos amigos...


Aqui ao lado fica a ligação a algumas das suas séries mais divertidas e instrutivas, porque são coisas essenciais.


 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:44

A mudança não virá do sistema nem da rua... mas das consciências

Segunda-feira, 28.02.11

 

Esta reflexão sobre a mudança inevitável vem na sequência da anterior: o sistema está a reorganizar-se. E baseia-se igualmente em deduções. 

Como é óbvio, a mudança não virá do próprio sistema, até porque o sistema se está a preparar para neutralizar todo e qualquer movimento que possa perturbar o seu equilíbrio e estabilidade. Como? Há muitas formas.

Se ontem ouviram o Professor Marcelo a comentar a possível manifestação de jovens descontentes a 12 de Março, podem já perceber uma das formas, perfeitamente enquadrada na lógica corporativa do sistema: Quem são eles? São essencialmente jovens... licenciados... desempregados... ou em estágio... um é ex-JS outra ex-BE... Descontentes... querem fazer parte da solução... Como é? Querem formar um partido?, um movimento?, uma associação?

Esta é a lógica corporativa: identificar os descontentes, perceber o que querem, para os tentar absorver no sistema, se possível, e assim neutralizar. Senão vejamos: Lembram-se quando surgiu o PRD com 18%, era muita gente descontente, mas logo a seguir Cavaco Silva conseguiu absorver esses descontentes para o PSD... não sei se repararam mas o Professor Marcelo imitou o ruído de quem suga por uma palhinha... os votos dessa gente toda. Referiu-se a mais alguém que sugou os votos de mais gente descontente, mas já não me lembro.

 

Sim, é até muito possível que o sistema consiga sugar, absorver e neutralizar o descontentamento dos jovens, até porque os próprios foram formatados na cultura corporativa. O discurso da mudança não pode ser corporativo: uma geração, direita, esquerda, uma profissão, uma camada social, etc. etc. O discurso da mudança é universal, abrange todos os cidadãos. 

 

Também tenho meditado muito nisto: estes movimentos de rua, já em desespero, onde podem levar? Estou convicta que as verdadeiras revoluções são interiores e discretas. Qualquer mudança consistente e consequente tem de se basear numa nova perspectiva e numa nova atitude de cada cidadão. Sim, a verdadeira mudança é interior, na consciência de cada um.

 

E no entanto... o primeiro sinal da mudança possível veio de um encontro feliz entre o Papa e o povo português. Poucos viram essa confirmação cristã de uma cultura milenar. Poucos valorizaram a profundidade do encontro. Mas nada ficou na mesma: o Papa reencontrou a sua energia vital, e a sua liderança na comunidade cristã ganhou um novo fôlego; nós reencontrámo-nos com a nossa raíz cultural cristã, de valores sólidos e duradouros.

 

Muitos foram os anos de domínio e de fracturas e machadadas culturais, muitos foram os anos de descaracterização e desertificação territorial que ainda continua, muitos foram os anos de artificialismos e pedagogias do ódio, muitos foram os anos de desprezo por tudo o que é verdadeiro e genuíno na nossa cultura cristã, mas esse encontro veio confirmar que a chama original está viva.

 

Somos essencialmente cristãos nos valores e na atitude. Somos comunitários. Somos afectivos e generosos. E se nos tornámos desconfiados do poder, tivemos boas razões para isso: falam outra linguagem, outra cultura, que nos tentaram impor por mais de dois séculos, uma cultura materialista, fria, impessoal, baseada em leis e em contorcionismos artificiais para proteger os seus membros. Trata-se de uma organização que se colocou indevidamente e ilegitimamente no patamar do poder político, social, económico e cultural.

 

A partir do momento em que nos reencontramos com a nossa verdadeira natureza, adquirimos uma nova energia vital, deixamos de nos sentir isolados e vulneráveis, sabemos quem realmente somos, essa é a nossa força. A da consciência. A dos valores. E essa é a mudança possível, a restauração da nossa cultura essencial, das nossas raízes cristãs, da nossa cultura comunitária da amabilidade e da universalidade.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:52

Coisas simples: as memórias felizes

Sexta-feira, 12.03.10

 

Não é propriamente nostalgia, mas mais uma ligação a sensações, emoções e sentimentos que experimentei ao longo dos anos em determinados momentos felizes.

Geralmente é pela música, uma música determinada, que tenho acesso a esses momentos felizes. Mas também pode ser um dia de sol, como hoje, ou gestos simples como cuidar das plantas, ou cantar, ou dançar...

Retenho esses momentos felizes, essa claridade, essa respiração, para me acompanharem e inspirarem, uma vez que o que nos rodeia hoje em dia não é muito estimulante nem encorajador.

 

Ouvir falar da violência escolar sem castigo, de uma gestão escolar ausente... e do seu resultado dramático, um pré-adolescente que se atira ao rio e de um professor que se atira da ponte, porque chegaram ao limite do sofrimento suportável...

Ouvir um Presidente em entrevista, e acompanhá-lo penosamente no seu dia-a-dia mais que cinzento e impessoal, mais que ausente, talvez mesmo de um outro planeta...

Ouvir um ministro insultar os gestores locais, os que estão mais próximos das populações e lhes sentem as necessidades quotidianas...

Como disse Mota Pinto em discurso na AR: a ausência de verdadeiros estadistas nas rédeas do poder... Prisioneiro do seu calculismo político, o governo continua a colocar em segundo lugar o interesse nacional...

 

Sim, se não fosse a nossa incrível capacidade de nos distanciarmos da mediocridade que nos rodeia, da maior loucura e insensatez... e graças a estes neurónios, os nossos melhores aliados, que nos permitem deslocar a atenção para coisas bem mais merecedoras da nossa atenção e cuidados... sim, se não fossem osintervalos saudáveis onde se pode ir respirar para voltar à arena com outra disposição, outra energia, outro entusiasmo...

 

Podemos trazer para o nosso presente esses tempos felizes, não por desejarmos a eles voltar, mas simplesmente para nos lembrarmos dessas sensações, emoções e sentimentos, o melhor que somos.

Respirar livremente nessa claridade, nessa tonalidade, que é nossa e irrepetível, e não nos deixarmos contaminar pelo ódio que pressentimos à nossa volta, e o medo, que alimenta o ódio. E o mal, que se alimenta do medo e do ódio.

 

Haverá sempre loucos que tentam interferir na vida das outras pessoas, condicioná-las, utilizá-las, escravizá-las. E pessoas que se deixam deslumbrar por esses "falsos deuses" (Arno Gruen) que usurpam o poder. Este fenómeno será tema de um próximo post pegando neste autor que nunca esteve tão actual.

Sim, haverá sempre loucos a atropelar outros, porque se julgam superiores, de outro plano, acima das regras e dos limites, acima das éticas e dos equilíbrios. E haverá sempre conformistas a servir de capacho, a manter-lhes o cenário, a cobrir-lhes a retaguarda, a esconder-lhes as tropelias.

 

Retenho, pois, essa claridade e essa tonalidade, até sentir que, para lá de tudo, dessa ilusão maior, somos uma existência breve e fugaz...

Deixemos, ao menos, no nosso caminho, uma influência benigna. E que a nossa influência seja tão leve e imperceptivel que não seja sequer possível calculá-la ou avaliá-la. Essa é, para mim, a poesia mais elevada, a filosofia de vida perfeita.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:09

Coisas simples: as emoções

Sábado, 13.02.10

 

Que semana esta! Como é possível que uma pessoa como eu, que já passou há muito a fase da idade impressionável, ainda se deixe envolver pela emoção e entusiasmo, só por causa de um primeiro sinal de vida do cidadão comum, por exemplo?

 

Mas foi mesmo assim. Outras novidades entretanto me emocionaram, por razões diferentes, mas aquele primeiro sinal de vida foi o que me pôs o coração a bater mais depressa e a meter-me a caminho.

 

Se esta iniciativa alterou alguma coisa? Se teve algum impacto? Ainda é cedo para o dizer.

Mas no plano simbólico foi significativa. É um primeiro sinal de vida. De uma sociedade civil que já se dava como amorfa, indiferente, em estado comatoso.

 

Se as opiniões pós-manifestação me impressionaram ou incomodaram? Não, mas deixaram-me perplexa. O que é que os críticos da manifestação entendem por liberdade? A mim não me incomoda nada quem não esteve lá. São tão livres de não estar como eu de estar.

Quanto aos comentários deselegantes e até grosseiros, porque a ironia inteligente não é o seu forte, também não me incomodam nada, a não ser as emoções que revelam, esse subterrâneo de agressividade que os caracteriza: ódio e raiva, por exemplo, são emoções que me desagradam, confesso. 

 

Quanto ao trabalho jornalístico, uma desgraça. No "Público" o texto refere mais de 100 pessoas mas na fotografia aparece apenas uma: um senhor segura um cartaz e por trás vemos a escadaria, a Assembleia e um triângulo de céu azul. Bonito! Quem não passou em frente do grupo, isto é, a maior parte dos leitores do "Público", ficou com a ideia, erradíssima, da geração da maioria dos participantes da manifestação, por exemplo. E esse seria o dado essencial da manifestação. Pois é, falharam no essencial: a maioria dos participantes pertence às gerações pós-revolução de 74. Eu apontaria mesmo para uns 80%, os manifestantes nascidos nos anos 70 e 80. Isto já diz muito do significado da manifestação. Uns 15%, das gerações que eram crianças ou adolescentes (o meu caso) na revolução de 74. E os tais 5% da geração representada pelo senhor da fotografia. Que rico jornalismo o do "Público"! 

 

Aqui também se iniciou um novo conceito de manifestação: deixa de ser a pose ou o slogan, para ser um encontro descontraído de pessoas que partilham uma ideia e uma mensagem. Essa ideia e essa mensagem é transmitida através de uma petição que é entregue no local adequado.

A presença das pessoas ganha outro significado: estão lá, sabem porque estão lá, e isso lhes basta. No final, a promotora da petição agradece a presença de todos e batem-se palmas.

Esta cultura do encontro, numa ideia e numa mensagem que une um grupo heterogéneo de pessoas, esta cultura da amabilidade e do respeito pelas diversidades, é uma lufada de ar fresco para quem viveu numa cultura de autêntica divisão por subgrupos, essa pressão insuportável e medíocre de ideias feitas e de preconceitos.

Esta cultura do respeito e da amabilidade na diversidade é a adequada numa democracia de qualidade.

 

Penso ter apontado o essencial desta petição e desta manifestação: há aqui um salto cultural e geracional. É esse, a meu ver, o seu primeiro significado.

Nasce nos blogues e no twitter (o que me agrada pensar que o José Manuel Fernandes faz muitos mais estragos à cultura da seita das pressões, no twitter, do que fazia no "Público"!), nesse espaço de liberdade, num universo paralelo ao dos jornais e das televisões, onde a liberdade está cada vez mais ausente.

Outro significado: não há qualquer hipótese hoje em dia de manter esta cultura da mediocridade. Pode levar mais tempo do que desejaríamos, mas este é o primeiro sinal desse salto cultural e geracional, queiram ou não admiti-lo.   

 

Recentemente um amigo, numa conversa animada sobre séries de televisão, ao ver quais as minhas preferidas, referiu de forma certeira: Gostas de ver resultados rápidos.

É verdade, nunca apreciei séries como os Perdidos, que ele acompanha desde o início, por exemplo.

O nosso Alan Shore (Boston Legal) resolve os casos em tribunal e ficamos logo a saber o veredicto. Mesmo na série Flashforward vamos tendo alguma informação que nos permite ir compondo o puzzle final. E agora, na Lie to Meos resultados estão logo à vista, na observação científica das reacções faciais e corporais das pessoas. Vale a pena ver. A sério! Já aprendi uma ou duas reacções que revelam a mentira, por exemplo. É muito útil. Também já consigo identificar o ódio, a raiva, o desprezo, apenas pela expressão facial.

 

Bem, sobrevivi a esta semana e é isso que importa.

 


Correcção estatística: Depois de ver alguns vídeos da manifestação, talvez deva corrigir aqui as minhas primeiras estatísticas. Embora não se trate de nenhum estudo sociológico, gosto de analisar os fenómenos e aqui a representação por gerações tem um significado para mim.

Assim, talvez a minha geração e a imediatamente posterior, isto é, as que eram crianças e adolescentes na revolução de 74, estejam melhor representadas do que inicialmente contabilizei: em vez dos 15%, aí uns 30%. Mas ainda assim, as gerações pós-revolução de Abril são as que compareceram em maior número.

A meu ver, a distinção direita-esquerda é secundária. Porquê? Porque ninguém tem o monopólio do respeito pela liberdade. Essa consciência é individual, não é colectiva. Começa em cada indivíduo. Isso é que determina como se vai comportar no colectivo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:12








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